Meu avô Luciano e os Irmãos Saraiva

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Meu avô materno Luciano nasceu em 1882, em Estación de Achar, Departamento de Tacuarembó, Uruguai.

Era filho de Don Policarpio Cunha, de quem já falei em outra história publicada em meu livro O Velho e a Fera — Contos do Sul.

Mas o que meu avô tinha a ver com os irmãos Aparício e Gumercindo Saraiva ? !

Vejamos:

Aos vinte e oito anos, em 1910, já casado com minha avó Ana Lisbela Figueiredo, nascida na localidade uruguaia de Salsipuedes, na divisa entre Paysandu e Tacuarembó, meu avô veio trabalhar na fronteira de Santana e Rivera na primeira charqueada, fundada em 1907, no Rincão da Carolina, por Don Pedro Irigoyen, depois sucedida pelas empresas anglo-americanas Swift Armour.

Meu avô trabalhou nas charqueadas Armour e São Paulo nas primeiras décadas do século passado, passando a partir daí a ser arrendatário rural e eventualmente tropeiro de gado, mantendo sempre a sua residência na fronteira.

Depois de residir por muitos anos e criado seus filhos nas imediações do Cerro do Chapéu, no final da década de 40 adquiriu uma pequena fração de campo, de um alqueire, rodeada por eucaliptos, nas proximidades de um velho umbu que hoje não existe mais e que ficava em frente ao antigo Curtume de Rivera, à direita de quem vai para o Porto Seco pela Avenida Líbano, na época uma pequena área de uns 5 hectares, onde hoje existe um núcleo residencial de ‘viviendas’.
Nesta chácara do meu avô, na década de 50 (1954 … 1955 … 1956), eu costumava ir brincar e tomar banho numa pequena lagoa frequentada por algumas garças, marrecos e quero-queros. Era um lugar bonito e tranquilo, e a ausência do barulho de veículos motorizados na época contribuía para essa tranquilidade, apesar de sua chácara situar-se próximo à zona urbana de Rivera.

O sítio do meu avô lindava com a chácara de Don Pepito Protti que mantinha a produção de árvores frutíferas e leiteria e onde todos os dias, aí pelas 5 horas da tarde, eu ia beber leite in natura, ordenhado na hora, nos tambos de vacas holandesas de Don Pepito, assim como buscar frutas do pomar que circundava a sua propriedade.

Nesse tempo Don Luciano já era um homem de quase 80 anos, mas ainda assim continuava trabalhando em sua pequena chácara e tropeando, pois fora praticamente o que fizera em toda sua vida, com a sua indumentária de gaucho “paisano” e seu inseparável lenço branco.

Meu avô no Uruguai pertencia ao partido Blanco e portanto era correligionário dos irmãos Aparício e Gumercindo Saraiva que também usavam lenços brancos, embora no Brasil fossem aliados dos federalistas ou maragatos, que usavam lenços vermelhos e haviam apoiado o senador Gaspar Silveira Martins durante a revolução federalista de 1894, quando esta revolução foi contida pelos republicanos, também chamados em parte “chimangos” e em parte “pica-paus”, conforme a sua indumentária, chefiados por Júlio Prates de Castilhos e por seus aliados políticos.

Mas Don Luciano, que era um homem pacífico, embora tenha sido contemporâneo de todos esses guerreiros e episódios revolucionários — 1894, 1904 (revolução uruguaia entre blancos e colorados), 1923, 1930 e 1932 –, morreu de morte natural na década de 50.