O destino amoroso de Rivera-Livramento

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Hoje em dia vimos que as marchas e contramarchas de espanhóis e portugueses não permitiram que se criasse, nesta campanha, uma ideia separatista de fronteira. A espantosa intimidade entre Santana do Livramento e Rivera resume, agora sem sangue ou fogo, uma convivência favorecida pela Geografia e contrariada pela História. Unidas por uma rua, que também é a fronteira que separa. O Brasil do Uruguai, Livramento e Rivera vivem juntas, como duas irmãs numa mesma casa: dividindo diversões, tarefas, brincando e brigando ao sabor das guerras, dos parentescos, do futebol, do câmbio e dos turistas. Humores que se comunicam à procura de um equilíbrio.

O destino que sentimos hoje sempre foi um metabolismo comum. As duas cidades se alegram e se irritam num mesmo ritmo, embora tenham horários e preferências distintas. Livramento janta de preferência às 20h00. Rivera a partir das 22 horas. Aqui se prefere feijoada, lá puchero (um cozido). Apenas em Livramento sempre existiram umbandistas. O carnaval do lado de cá é com cuíca e tamborim. Do outro lado da rua, são pequenos blocos, murgas em tablados nos bairros, mente fantasiada fazendo cançõezinhas satíricas. Sátiras do lado brasileiro não são bem vistas. Por mais amáveis e graciosos que possam ser, a tradição gaúcha é distinta, de um lado “Pátria Gaucha”, do outro “20 de setembro”. Nossas duas cidades em uma que parece uma terra dividida em dois não deixam de ter suas complicações: Cidades em que você se distrai e faz um contrabando. Cidades em que os automóveis tiveram duas placas. Cidades em que é conveniente olhar para os anúncios publicitários para saber se já é Uruguai ou ainda Brasil. Cidades em que um guarda pode ter que expulsar um cidadão de sua própria pátria para facilitar o trânsito.

No capítulo dedicado à visita de D. Pedro II a Livramento, o diário do Conde d’Eu registra: tivemos de tomar caminhos de cabra, pois a verdadeira estrada para Sant’Ana segue também pela coxilha, e, portanto, o Imperador teria que abandonar o Império. A linha divisória foi desenhada para desnortear. No centro, por exemplo, ela desce suavemente pelo Cerro do Marco, desliza pela praça dos Cachorros e dá uma inesperada guinada, para dividir fraternalmente a praça Internacional e seu obelisco. Ao longo da praça dos Cachorros, bustos em duas Histórias numa superposição de épocas: Artigas, Barão do Rio Branco, Bernardo Irigoyen. Saldanha da Gama. Flores da Cunha. A postura desses notáveis personagens é significativa: os uruguaios estão de perfil, dando ombros para os dois países. Os brasileiros estão virados para seu país, de costas para Rivera. Mas as ruas brasileiras correm paralelamente à fronteira, como se procurassem absurdamente o mar. Já as ruas uruguaias são perpendiculares à fronteira apoiam-se na linha. Por um acaso, todas elas têm nomes de batalhas que o Brasil perdeu para os uruguaios: Sarandi, Agraciada etc… Pequenos sinais que a História envia para corrigir a geografia. Na verdade, todas as cidades uruguaias da fronteira foram criadas para conter suas irmãzinhas brasileiras. Um rio-grandense chauvinista propôs trocar o nome da rua divisória (do lado brasileiro) de João Pessoa para Tacuarembó – batalha em que os uruguaios foram massacrados. Não foi levado a sério.

Enfim, Livramento e Rivera sempre foram únicas na história pelo destino do amor, pois soldados dos dois lados se apaixonavam por mulheres de ambas nacionalidades. Uma relíquia da humanidade.