Magia e sedução na Colmeia e na Papuda

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A ministra Rosa Weber, durante sessão de julgamento sobre limite para compartilhamento de dados fiscais

Primeiro contei até 10, três vezes por dia durante dez dias como recomendaria minha avó se o caso fosse sério. Depois, busquei no Google, em detalhe, o que escreveram CNN, Globo e Poder 360. Em todos, a mesma informação: a ministra Rosa Weber, no discurso de despedida do STF, contou que o colega Alexandre de Moraes foi aplaudido pelos presos dos atos de 8 de janeiro recolhidos à Papuda e à Colmeia durante visita a esses institutos penais.
 
Confesso a vocês minha estupefação e me surpreende que tenham sido tão rarefeitas quanto vãs as tentativas de aprofundar essa informação. Fazer o quê? O jornalismo brasileiro anda assim. É um curioso jornalismo sem a mínima curiosidade em relação ao que saia fora de suas pré-fabricadas narrativas e adjetivos de laboratório.
 
Aplausos ao ministro Alexandre de Moraes já me haviam surpreendido anteriormente na cerimônia de diplomação de Lula, em auditório lotado pela elite petista. Ao chegar à mesa para dirigir os trabalhos, o então presidente do TSE foi mais aplaudido do que Lula! A ruidosa saudação proporcionada por um público em pé, prolongou-se por 50 segundos. Experimente bater palmas durante 50 segundos. Os aplausos para Lula, um pouco depois, pararam aos 44.  A diferença é pequena, sei, mas eu a presumo inédita.
 
Por mais que eu busque motivos para os aplausos dos presos ao ministro relator de seus processos, eu não os encontro no mundo dos fatos conhecidos. Aplaudir é um ato de concordância ou de emoção positiva. Estariam os presos concordando com o modo como foram arrebanhados? Expressavam gratidão pelo tratamento dispensado a eles e a seus advogados? Manifestavam sua felicidade com as recusas aos habeas corpus, os empregos perdidos e a separação de suas famílias?
 
É desnecessário falar com os réus para saber que responderiam negativamente a qualquer dessas perguntas se fosse possível formulá-las de viva voz, olho no olho. Não posso deixar de lado, porém, o fato material conforme narrado em público pela ministra então presidente do STF: réus do dia 8 de janeiro aplaudiram o ministro relator de seus processos. Por fim, não me sinto confortável para especular sobre a natureza do fato ou fatos que impulsionaram as mãos àquela expressão ruidosa de concordância ou admiração por … sabe-se lá o quê. No entanto, isso eu posso dizer: algo grave aconteceu ali para converter em aplausos o antagonismo que seria normal esperar. Como se obtém tamanha magia e sedução? Pois é…
 
Durante meses, enquanto reprovava a conduta criminosa e estúpida dos vândalos, eu me condoía com a imensa maioria dos presos em seu injustificável encarceramento e reprovava o tratamento de rebanho que lhes era imposto e que se reproduz nos julgamentos virtuais sob a ira das cortes. Talvez este seja mais um dos tantos mistérios, penumbras e ruidosas exceções que acortinam a história destes últimos anos.