O trabalho do escritor

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Uma forma de gravar certas coisas e nos conscientizarmos delas é, além da leitura, procurar mais tarde exercitar a memória escrevendo a respeito do que lemos, vemos e ouvimos, e sempre que possível registrando o nosso entendimento e o nosso pensamento crítico, seja sobre filosofia, política, sociologia, história, religião, ciência ou ficção.

Com isso ao mesmo tempo exercitamos a memória e o raciocínio, fazendo com que interpretemos o que lemos e possamos nos reportar a tudo o que lemos e ouvimos com as nossas próprias palavras, embora não necessariamente concordando ípsis lítteris com o ponto de vista dos autores, mas tendo a oportunidade de contestar ou mesmo contribuir, com o que sabemos, para uma outra visão ou enfoque do assunto abordado.

Esse é o trabalho do escritor ou da escritora, ou seja, daquele ou daquela que lê, pensa, prospecta e escreve, ou que, escrevendo, discorre sobre idéias que embora não sejam originais ou absolutamente suas, estão armazenadas naquele plano mental que Jung denominou de “o inconsciente coletivo”. E o inconsciente coletivo não se constitui apenas do que lemos, mas do que vivenciamos e do que percebemos através dos 5 sentidos mesmo antes de nascer, como conversas, sonhos, impressões visuais, fotografias, filmes, etc.

E o ato de pensar e escrever vai prospectar justamente nesse manancial comum a todos, e a que todos temos acesso, sem sermos, tanto na prosa quanto na poesia, os donos absolutos do seu conteúdo, mas apenas do ordenamento das idéias e das palavras que utilizamos para construir o nosso texto e, com isso, exteriorizarmos o nosso pensamento.

De nossas leituras temos acumulativamente gravados na memória do inconsciente (parece um contrassenso mas não é) o conteúdo de muitos livros, entre relatos históricos, diálogos, discursos e ensaios, como os de Homero, Platão, Ovídio, Luciano, Dante, Erasmo e Thomas Morus. E de outros autores, entre poetas, filósofos e pensadores antigos e modernos.

Desse modo, aumentamos a nossa cultura intelectual, tornando possível, ao escrever, a abordagem de qualquer assunto e, com conhecimento, opinamos a respeito, muitas vezes gerando controvérsias, o que é muito saudável e conveniente para sabermos, não quem é o dono, mas quem está mais próximo da verdade.