A guerra dos gaúchos tinha escravos uruguaios

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O historiador norte-americano Spencer Leitman, bacharel em História pela Universidade do Estado de Nova York, mestre e PhD em História pela Universidade do Texas, é um dos mais reconhecidos estudiosos da História Rio-grandense. No livro As Guerras dos Gaúchos – Histórias dos Conflitos do Rio Grande do Sul, Leitman é responsável pelo capítulo A Guerra dos Farrapos (1835-1845).

Em seu texto, Leitman argumenta que a Revolução Farroupilha foi um movimento autonomista semelhante aos dos países hispânicos em seus primeiros estágios após 1810. Para tanto, remonta todo o processo da revolta que assolou o Estado por uma década. Leiman disse que a desvantagem militar dos farrapos em termos de número de homens foi revertida pela incorporação de escravos de estâncias dissidentes, tanto dentro quanto fora da Província. Eles tomaram escravos de charqueadas pelotenses depois da vitória que João Manuel Lima e Silva obteve lá em abril de 1836 e depois recrutaram mais escravos das estâncias uruguaias no meio do inverno. Em dezembro de 1837, num interrogatório legalista muito detalhado de um escravo que tinha lutado durante algum tempo com os farrapos, este relatou ao Brigadeiro legalista da guarnição de Porto Alegre que a infantaria branca dos farrapos “, quase toda tem desertado e que presentemente são pretos, uns com armas e outros com lanças.” Entretanto, mesmo quando a situação militar era tudo menos animadora, os farrapos geralmente mantinham seus próprios escravos fora da luta armada.

Depois da batalha de Ponche Verde, em 1843, Joaquim Teixeira Nunes recebeu a ordem de arrebanhar cavalos e escravos do inimigo e uma conclamação especial foi feita mais uma vez aos patriotas para emprestarem seus escravos a fim de aumentar “nosso corpo de libertos”. Eles receberiam documentos de indenização do Tesouro Público dos farrapos. A maioria dos rebeldes sabia que os cofres do tesouro estavam vazios. Para os farrapos, os escravos ainda eram necessários por causa da mão-de-obra e do status social. Um rico comerciante de Alegrete, que fez negócios com os farrapos em 1843, pediu a Almeida que lhe cedesse seus escravos, pois queria usá-los em sua própria casa. Para salvaguardar seu capital e nutrindo a esperança de reconstruir sua presença no negócio do charque, Almeida transferiu a maioria de seus escravos para o Uruguai no início da guerra (Varela, 1993:v.3,321).

Outros protegeram seus escravos de formas diferentes. Os farrapos atinham-se aos princípios da propriedade privada, mas não para os inimigos da República. Os escravos de dissidentes que serviam no Exército não eram necessariamente tratados como libertos. Os escravos continuavam sendo propriedade, eram tratados como tal e continuavam sendo considerados bens móveis. Mas eles buscavam sua própria liberdade. Os libertos que lutavam com os lanceiros ou com a infantaria recebiam uniformes, rações e pagamento quando o Tesouro Público tinha verbas para isso.

Na etapa final da guerra civil, quando o Império do Brasil apertou o cerco, alguns farrapos combateram até a morte. Um deles foi o major Joaquim Teixeira Nunes, comandante dos Lanceiros Negros. Logo depois do massacre no Cerro dos Porongos, foi morto no confronto do Arroio Grande, em 28 de novembro de 1844.