O Chimarrão e a labuta

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Teria uns dez anos mas tenho presente na memória que na casa de meu avô havia uma garagem bem grande e neste local, todas as manhãs, ele retirava o Chevrolet 45 de dentro e o punha junto ao meio fio na sombra de um Paraiso. Logo em seguida eu entrava em ação.

Era meu dever arrumar em forma de “U” as pequenas cadeiras de assento de palha, que estavam amontoadas em um canto. Este ritual era diário, porque a partir das 10h começavam a chegar infalivelmente os amigos pecuaristas do meu avô, que vinham conversar e tomar mate e esta roda perdurava até o meio-dia, quando se retiravam.

Desde pequeno aprendi que o chimarrão é o companheiro inestimável de todo este povaréu que habita estas paragens e quando se reúnem duas ou mais pessoas para uma conversa, o denominador comum entre elas sempre foi o mate amargo que deve circular de mão em mão, como se fosse um ato contínuo. Não seria estranho que em minha adolescência eu também quisesse ter o meu porongo, escolher a erva que mais agradasse ao meu paladar e já tivesse uma garrafa térmica.

Ao longo dos tempos e com o meu envolvimento laboral em distintas atividades, passei a perceber que o chimarrão se tornava incômodo em várias ocasiões. Quando estava lendo um livro, cada vez que devia repor a água quente na cuia e sorvê-la, perdia o ritmo da leitura e a conexão do pensamento com o teor do que estava diante de mim.

Ao escrever algum texto, cada vez que parava para tomar o mate, ao retornar precisava ler os parágrafos anteriores para ver onde havia interrompido e seguir a sequência do raciocínio lógico a que me dispunha. Em certa ocasião cheguei numa repartição pública e ali o mate estava correndo entre os servidores. Notei que as demais pessoas que já estavam ali se sentiam impacientes para ver concluída a tarefa que eles solicitavam. Logo percebi que era a roda de chimarrão e as conversas intercorrentes que retardavam o atendimento e causavam aquele visível mal estar.

Aos poucos fui percebendo que o chimarrão não é compatível com o trabalho e passei a dar razão a um amigo que sempre dizia: a cuia é a arma do vagabundo, pois quando ele a empunha fica com as mãos obstruídas para qualquer atividade.

Certa vez, trouxe o mate para a mesa do meu escritório e por um descuido, bati com a mão na bomba. Virou a cuia e a água verde inutilizou os papéis com os quais estava trabalhando. De outra feita a cuia virou sobre o teclado do computador e ele ficou imprestável e só restou sair correndo para comprar outro. Que calamidade!

A pessoa que me dá assistência para o meu computador, contou-me que fica até pesaroso quando algum cliente o procura para consertar um notebook sobre o qual foi derramado algum refrigerante ou o chimarrão e que não tem mais salvação e nem conserto, tornando-o inútil.

É hábito muito arraigado e comum por aqui alguém portar a térmica debaixo do braço e a cuia na mão. Imaginem essa pessoa chegando assim numa empresa para pedir emprego. Será que o empregador acharia que aquela pessoa é eficiente para assumir uma função laboral?