Tio Mariano

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Dos irmãos da minha mãe, com os quais mais convivi, estavam o Manoel e o Mariano. Depois o Almerindo e o João Carlos.
Sobre o tio Manoel eu já falei em outra oportunidade. Agora vou dizer algo sobre o tio Mariano.
O tio Mariano era dos homens o mais jovem dos filhos do meu avô Luciano e de sua esposa Ana Lisbela e trabalhou durante muitos anos como chefe da carpintaria da Prefeitura Municipal.
Lembro dele quando nos visitava ou vinha almoçar conosco e a mãe fazia, por sua causa, aquele delicioso arroz com leite de que eu também gostava.
Quando o tio Mariano vinha almoçar, eu já sabia que a mãe ia fazer arroz com leite e ficava duplamente contente, pelo arroz com leite e por ouvir as histórias que o tio Mariano contava, de suas aventuras quando era jovem e outras, como aquela em que o tio João Carlos, quando bebê, estava sendo amamentado de madrugada por minha avó adormecida, quando moravam em campanha, e veio uma cobra e enfiou a ponta da cola na boca do tio João Carlos e continuou mamando em seu lugar no seio da minha avó. O tio Mariano, chegando em casa nesse momento, viu aquela cena, pegou um facão e cuidadosamente retirou a cobra do seio da minha avó .
Mais tarde fiquei sabendo que era apenas uma história inventada por ele, mas essa história e outras, contadas em detalhes pelo tio Mariano, pareciam verdadeiras.
Outra historia que ele contava, que nos enchia de terror, suspense e curiosidade, era a da sua briga, de madrugada, com uma alma de outro mundo, lá pelas bandas do cemitério do finado Reinaldácio. O tio Mariano era de fato um homem muito valente e corajoso.
Mas afora a sua valentia e o exagero de algumas de suas histórias, tinha uma boa alma e um grande coração. Ele se orgulhava de não ter inimigos e de ser conhecido de todo o mundo em nossa comunidade, do mais alto ao mais baixo nível social e econômico, sendo amigo das autoridades e da polícia e igualmente de malandros, malfeitores, bandidos e ladrões. Por isso ele tinha passagem livre em todo o lugar por onde andasse, e muitas vezes, durante alguma circunstância de conflito ou de perigo, era defendido ou protegido por amigos ou conhecidos eventualmente considerados maus elementos ou foras-da-lei.
O tio Mariano não discriminava ninguém e era uma espécie de anjo protetor dos menos favorecidos, das criaturas carentes e dos injustiçados, e algumas vezes intercedeu, valendo-se do seu prestígio junto ao juiz e à polícia, para que algum amigo ou conhecido, porventura preso, fosse libertado.
Quando via algum ébrio ou mendigo dormindo ao relento no inverno, se não pudesse levá-lo para casa, era capaz de tirar o seu próprio casaco para cobrir essa pessoa. Uma vez deixou o seu casaco com uma conta de luz no bolso, cobrindo um desses viventes, e no dia seguinte o desconhecido foi até sua casa, que ficava nas imediações da Casa de Saúde, para devolver o casaco e agradecer o seu gesto.
Extremamente solidário e caridoso, muitas vezes, nos bares ou restaurantes da cidade, pagava a bebida e as refeições para pessoas humildes que, estando sem dinheiro, desejassem comer ou beber alguma coisa.
Atitudes assim o tornaram admirado e benquisto por pessoas que nem conhecia.
Uma vez a sua esposa tia Jurema encontrou dormindo numa peça, nos fundos da casa, um desses infelizes de rua, bem agasalhado com cobertores pelo tio Mariano. Ao perguntar a ele quem era aquela pessoa, ele respondeu:
“Não sei quem é, Jurema. Foi um cristão que eu encontrei caído na rua esta madrugada. Depois faz o favor de preparar um café quente com bolacha, mortadela e queijo, e leva pra ele.”
Assim era o tio Mariano, capataz de obras da Prefeitura Municipal, que deixou o seu exemplo de caráter, honestidade e generosidade, como herança para seus filhos e netos.