Coluna – Viajando o mundo com os games

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Jogos permitem perambular por cidades e dar volta ao mundo de avião

No “novo normal” viajar por lazer ainda é uma impossibilidade para a maioria das pessoas. Motivações financeiras ou restrições de acesso a países e pontos turísticos fizeram muita gente adiar os planos de conhecer e visitar novos lugares. Passear na sua própria cidade também tem suas próprias limitações por conta do isolamento social necessário para conter o avanço da covid-19. 

Um paliativo que gosto muito é assistir vídeos de walking tour no YouTube, aquelas onde pessoas filmam com pouco ou nenhum corte de edição caminhadas pelas ruas de várias cidades do mundo. Outra opção, um pouco mais ativa, é viajar pelo planeta por meio dos videogames. E um deles em especial tem se destacado nesses tempos de quarentena.

Flight Simulator é um simulador de voo da Microsoft cuja primeira versão foi lançada ainda em 1982 para computadores. Há quem discorde do termo “jogo” para o título: afinal, não há objetivo, missões, história, inimigos ou um final feliz a alcançar. Basta escolher um modelo de avião, um aeroporto como ponto de partida e alçar voo a milhares de pés de altitude. 

O primeiro título da franquia permitia o sobrevoo de apenas quatro cidades dos Estados Unidos. Já a versão disponibilizada em agosto de 2020 possibilita viagens por qualquer lugar do planeta, com uma fidelidade e realismo impressionantes. É bem verdade que nem tudo é perfeito: toda a superfície da Terra (cerca de 510 milhões de quilômetros quadrados) foi recriada a partir de imagens de satélites e um algoritmo que lê e traduz  os cenários em visualizações 3D. 

Como todo “robô”, porém, ele falha: já ficou notório o Palácio de Buckingham de Londres representado como se fosse um prédio comercial. Até mesmo os Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro, são exibidos de maneira semelhante. Nada, porém, que incomode ou estrague a experiência quando você sobrevoa em alta altitude. Detalhes técnicos e a falta de autorização para o uso de imagens de espaços como esses explicam tais incongruências. Ainda assim, houve um cuidado especial a outros monumentos icônicos, como o Cristo Redentor no Rio de Janeiro e muitos dos principais aeroportos do mundo. Mesmo com algumas falhas, Flight Simulator 2020 representa um salto de qualidade bastante impressionante desde a última versão, Flight Simulator X, de 2006.

A edição 2020 está disponível no Xbox Game Pass, serviço de assinatura da Microsoft que, mediante pagamento de uma mensalidade, permite baixar não só o simulador de vôo, como centenas de jogos no PC e plataformas Xbox sem custo adicional. Com isso, Flight Simulator 2020 tornou-se acessível a muita gente que provavelmente nunca se importaria em pagar por um game desse tipo. O resultado foi uma repercussão positiva em redes sociais, que atraiu mais de um milhão de jogadores em apenas duas semanas. Este foi o maior lançamento do Xbox Game Pass para PC até hoje, segundo a Microsoft. O simulador de voo também tem lançamento previsto para as plataformas Xbox, o que deve ampliar exponencialmente o alcance do game.

Outros jogos permitem conhecer cidades ou, pelo menos, parte delas de forma mais intimista. Nunca visitei Nova Iorque, mas pude ter um pouco da sensação que é andar pelo Central Park, ruas e becos da ilha de Manhattan graças a Marvel’s Spider-Man (PS4). A série Yakuza é famosa por recriar as ruas da zona boêmia de Tóquio, entre outras cidades do Japão. Dá até para entrar em restaurantes, lojas e viver experiências bem semelhantes àquelas vividas pelos moradores locais. 

Em alguns games, é possível “viajar no tempo”. Nisso, a franquia Assassin’s Creed é especialista: é possível adentrar e escalar pontos turísticos famosos como a Catedral de Florença em Assassin’s Creed II em plena Itália Renascentista ou as pirâmides de Gizé no Egito, durante o reinado de Cleópatra em Assassin’s Cred Origins. Assim como no Flight Simulator, nem tudo é 100% fiel ao original: alguns detalhes podem ser propositalmente alterados para se adequar à jogabilidade e ao enredo dos games. Os mapas dos jogos também são claramente uma representação minimalista da realidade, quase como um “resumo” do original. Afinal, seria inviável recriar áreas gigantescas e, ainda que fosse capaz, provavelmente seria bem tedioso percorrer longas distâncias.

A simples contemplação, infelizmente, pode ser interrompida por determinados aspectos: nada mais irritante do que querer simplesmente perambular pelas ruas de Tóquio e ser incomodado por gângsters no game Yakuza. Problema semelhante ao encontrado nos jogos da série Assassin’s Creed. Ao menos nesse caso, a desenvolvedora Ubisoft implementou uma solução nos dois últimos jogos. O modo Discovery Tour permite que você perambule pelos cenários dos games sem ser importunado pelos inimigos, ao mesmo tempo que aprende sobre vários detalhes da história da humanidade, em uma espécie de vídeo-aula interativa. Um dos objetivos é incentivar o uso do videogame em escolas, depois que a Ubisoft descobriu que alguns professores tinham interesse, ou já utilizavam os títulos da franquia em suas aulas. É possível inclusive adquirir o Discovery Tour separadamente a um preço mais baixo.

Nada disso substitui a ótima experiência que é viajar. Porém, mesmo depois que essa pandemia passar, conhecer outras cidades e países por  meio dos videogames nunca vai deixar de ser interessante. Eles ampliam nossas possibilidades de “deslocamento”, sem restrições financeiras e de tempo, e podem abrir nossos olhos para realidades e locais que, de outras maneiras, talvez não nos interessariam.

Edição: Cláudia Soares Rodrigues

Por Guilherme Neto – Apresentador do quadro Fliperama no programa Stadium. A coluna será publicada pela Agência às quintas-feiras – Rio de Janeiro