Tia Deolinda e suas histórias

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A Tia Deolinda, irmã de minha avó, era uma moça velha e solteirona.
Os irmãos da minha avó Ana Lisbela Figueiredo Cunha, eram a Deolinda, a Biloca, a Marciana e o tio José Maria.
Porém eu convivi mais com o tio José Maria e com a Tia Deolinda.
Ela ía em nossa casa e às vezes se hospedava lá por alguns dias; ela morava com a minha avó, que era viúva do meu avô Luciano, numa casinha de madeira, no pátio da casa do tio Mariano, a cem metros da antiga Casa de Saúde, hoje CHS, no lado uruguaio da linha divisória.
A tia Deolinda era muito faceira, alegre e divertida. Gostava de contar histórias e pequenos chistes.
Enquanto a mãe cozinhava, a tia Deolinda, com seus cabelos longos e pintados, seu semblante magro, lábios finos e pintados de vermelho, uma saia comprida, combinando com a blusa, um cinto negro e largo com uma enorme fivela circular e uma blusa de renda com mangas compridas, anéis nos dedos, unhas bem tratadas, muitas pulseiras e um bonito e espalhafatoso colar, ficava ao lado da minha mãe alcançando o mate e contando suas histórias e anedotas. Outra peça de vestuário que ela usava na rua , então na moda para se proteger do sol, além da tradicional sombrinha, era um chapéu com uma telinha que cobria o rosto.
— O que tem pra me contar, tia Deolinda? – dizia a minha mãe.
— Pois nem te conto, Morena. Sabes que a Nica anda muito surda, a coitada. A noite
retrasada choveu muito, estávamos acordadas de madrugada e eu disse a ela que tinha começado a chover naquele momento. Aí ela me saiu com esta … “É, estão batendo as taquaras …” / “Não é vento, é chuva, Nica ! O que está batendo é a chuva no telhado ! ” / “Ta bem, amanhã eu faço um guisado!” / “Eu disse telhado, esta mulher !” / “Queres comer uma sopa de colher antes do guizado … Ta bem, eu faço !”
Mas havia algumas histórias que a tia Deolinda gostava de contar para ela mesma ouvir.
Particularmente gostava de histórias de mistério. E havia uma, que a minha vó contava, e que a Tia Deolinda sempre repetia , de uma vez em que o meu avô passava em seu petiço branco por um velho cemitério de campanha, às duas horas da madrugada, numa noite de lua cheia, quando um enorme cachorro peludo e escuro saiu do cemitério e seguiu atrás dele, com o pelo eriçado, rosnando e com os olhos de fogo, e o seguiu por uns cem metros, sem que o meu avô se animasse a olhar para trás … E quando o meu avô olhou de novo para trás, o cachorro havia sumido. Foi aí que ele se assustou, seu cabelo arrepiou e apressou o passo do seu petiço, louco para chegar em casa e contar para a minha avó sobre aquela aparição … Mas minha avó, que não tinha medo de aparição nem de assombração, que enfrentava e apaziguava até as tormentas com as suas benzeduras de tesoura, brasa e água benta, respondeu: “Isso é bobagem, Luciano!”
Outra história de que a tia Deolinda gostava, e que eu pedia para ela contar, era a de uma cobra mamadeira que uma vez foi encontrada mamando no seio da minha avó.
“Pois uma vez o Manoel (filho da minha avó) chegou em casa de madrugada, acendeu a luz do lampião e se deparou com uma cena medonha … A Nica, que havia adormecido amamentando o João Carlos (meu tio mais moço), que era um bebê, estava com uma enorme cobra mamando no seu seio, e com a ponta da cola enfiada na boca do João Carlos que, inocente, sugava a cola da cobra … Então o Manoel pegou um facão, enfiou a ponta por baixo da cobra, e a atirou longe, contra a parede de barro do rancho dos teus avós , atorando o bicho pelo meio …”
E outras histórias que não vou contar para não encompridar este relato, pois eu, particularmente, não gosto de histórias muito compridas.
(…)
Tia Deolinda viveu até os 87. Que Deus a abençoe, em espírito, junto a seus entes queridos.