O jogo em Livramento

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Contaram-me que há muitas décadas passadas, chegou nesta cidade um italiano com o propósito de abrir uma casa de jogo. Com efeito, aqui se instalou nas imediações da esquina da Rua dos Andradas e General Câmara, ali montou uma roleta e outros jogos assemelhados. Contaram-me também que na noite da inauguração da casa de jogo, o dono do negócio, que possuía um Ford T, deixou o carro bem abastecido na ladeira da rua transversal, pronto para a eventualidade de se dar mal na exploração do jogo e ter que fugir muito de repente. O que se sabe é que o italiano não fugiu, aqui se radicou definitivamente, constituiu uma respeitável família e um patrimônio imobiliário nos dois lados da linha divisória.

No tempo em que o jogo de cassino era permitido em nosso país, e isto perdurou até 1947, funcionou a roleta, bacará e outros jogos em vários locais, especialmente na casa de espetáculos A Caverna, que ficava na Avenida Tamandaré, tendo também no Clube Comercial e findando no Clube Caixeral, quando foi proibida esta atividade.

Ao que se saiba nenhuma família se desagregou e ninguém passou a ser pedinte de esmola em decorrência da roleta. Ao contrário, sabe-se que o jogo de roleta, como atração desta Fronteira, gerou muitos empregos diretos e ocupações para aqueles que se envolviam na manutenção do jogo, bem como em uma atividade paralela que é o lazer.

Decorridos mais de 70 anos, a exploração dos cassinos continua proibida assim como o jogo do bicho, porque, como jogos de azar, dizem, são maléficos para a sociedade cristã do Ocidente. Não há maior desfaçatez do que esta em nossos dias. Nunca houve tanto jogo de azar e oficial neste país como agora.

Basta chegar em uma casa lotérica concessionária de autarquia federal e escolher para fazer um ou vários dos mais diferentes jogos de azar que são postos a disposição de qualquer transeunte. Ou será que alguém teria a coragem de dizer que a Quina, Mega-Sena e assemelhados não são jogos de azar mas simples jogos de habilidade?
O mesmo se dá com o jogo do bicho. Qual é a diferença que existe entre aqueles jogos oficiais e o jogo do bicho? Por sinal, seria meramente repetitivo aqui ao se dizer que o jogo do bicho é uma das instituições mais sérias deste país. Confia-se muito mais na certeza do que se contém em um simples pedacinho de papel, fornecido pelo arrecadador do jogo, do que em algumas estruturas oficiais.

Ao se pensar que toda esta organização é considerada como ilícita e fora da lei, só pode nos assaltar a ideia que tal quadro deve gerar muitíssimos benefícios para algumas pessoas que vivem e exploram a proibição desta espécie de jogos.

Desde que me conheço por gente e isto já faz tempo, ouço falar na corrupção que perambula nos órgãos policiais proveniente do controle do jogo do bicho, a “tava” e tantos outros que, a meu ver, são vedados para dar a chance para alguém, travestido de autoridade, tirar proveito e ter ganhos extras na sombra do Estado e da sociedade organizada.

Afinal, quem é que ganha com a proibição do jogo?