A América de sempre

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Paremos para pensar em nossa América Latina e voltando no tempo. Já li alguma coisa ao longo dos anos sobre a organização dos povos incaicos e astecas e já me convenci que nada herdamos daqueles senhores. O atavismo legado, pelo que me consta, provém dos espanhóis e portugueses e não pode servir para o nosso envaidecimento. A herança foi trágica e não foi capaz de contribuir para a elevação moral desta nova sociedade que estava a se formar abaixo das colônias inglesas.

Não podemos olvidar que a partir da conquista do Império Inca por Pizarro e do Império Asteca por Cortês no século 16, a marca registrada foi o saque, a exploração, a traição, a destruição dos valores morais e o desmantelamento da organização social.

O jurista e historiador argentino Ricardo Levene (1885-1959) em sua obra História das Américas escreveu há mais de 80 anos sobre os povos deste continente na era pré-colombiana. Em seu trabalho ele procurou demonstrar o nível a que havia chegado o Império Inca. Diz o autor que eles dominavam perfeitamente a aritmética, a astronomia e a agricultura nos picos do Andes, pois o seu território corria desde a atual Colômbia até o norte do Chile, tendo como capital a cidade de Cuzco, na Bolívia.

Região íngreme, eles conseguiram manter uma organização social muito parecida com o sistema de kibutz, organizações coletivas e socializadas voltadas para a agricultura e que precederam a fundação do Estado de Israel em 1948. Levene afirmou que eles adotavam um sistema de férias e de aposentadoria além de outras vantagens compensatórias para os trabalhadores e tinham uma estrutura organizacional do Estado, como ente diretivo da sociedade.

O autor argentino chega a afirmar que o sistema socialista não foi uma criação europeia de Saint-Simon, Proudhon ou de Marx, mas que estes se apoderaram da teoria socialista vigente entre os incas e levada para a Europa pelos exploradores espanhóis. Diz ainda aquele autor que os europeus citados apenas deram as feições e os retoques apropriados para o socialismo poder ser lançado no século 19.

Quero crer que as crises institucionais que durante estes dois últimos séculos se multiplicaram em quase todos os países do Centro e do Sul deste continente americano, marcam a herança espanhola e portuguesa destes 500 anos.

Desde os movimentos de independência destes povos no início do século 19, quase nunca se puseram de acordo para se estruturarem solidamente. O Brasil até que foi uma exceção durante o Segundo Império (1841-1889), mas com a implantação do sistema republicano ficamos idênticos a eles.

No decorrer dos últimos 30 anos os povos sul-americanos perceberam que não há mais espaços para regimes ditatoriais e oligárquicos. O desenvolvimento só ocorrerá através da via democrática e o que significa o respeito às leis previamente aprovadas e aos direitos individuais do cidadão de cada país, apesar de que muitos ainda querem se apoderar dos bens públicos através das mais engenhosas artimanhas e estratagemas, assegurando privilégios que a maioria não detém.