O Manifesto de Bento Gonçalvez

A história é conhecida.

A situação econômica e fiscal pela qual passava a província de São Pedro do Rio Grande do Sul naqueles idos do ano de 1835 ensejava o descontentamento das classes produtoras do agronegócio, principalmente do setor das charqueadas em decorrência do aumento da carga impositiva.

Bento Gonçalves da Silva (1788-1847), que era fazendeiro ao Sul da província e coronel da Guarda Nacional, foi eleito deputado em 1835 para a primeira legislatura da Assembleia Provincial que se instalou em 20 de abril daquele ano.

Na ocasião em que era instalada a Assembleia Provincial o presidente da Província, Antônio Rodrigues Fernandes Braga, acusou o deputado eleito, coronel Bento Gonçalves da Silva, de articular um plano de separação da província do restante do Império, aproveitando-se de seu cargo de comandante da fronteira em Jaguarão, para aliciar gente no Uruguai para este fim.

É preciso referir que estas acusações foram oportunistas com o fito de atingir a oposição ao governo provincial de que tramava contra o Império, haja vista que no ano de 1932 fora criado em Porto Alegre o Partido Farroupilha que defendia a forma republicana, uma nova Constituição e um estado federativo. Estas ideias republicanas surgiram a partir da Abdicação do imperador Pedro 1º em sete de abril do ano anterior em favor de seu filho menor Pedro de Alcântara Bragança e Bourbon.

Bento Gonçalves valeu-se da oportunidade para denunciar publicamente as divergências dos estancieiros e charqueadores contra as medidas adotadas pelo governo. Dos discursos às armas bastou um passo.

Ao alvorecer daquele 20 de setembro de 1835, 30 homens sob o comando do capitão Manoel Vieira da Rocha, o cabo Rocha, que estavam na ponte da Várzea (hoje, ponte da Azenha) em Porto Alegre, enfrentaram uma guarnição palaciana, vencendo-a e avançando para pontos estratégicos de Porto Alegre.

O presidente da província Fernandes Braga, percebendo que não contaria com o apoio de seus militares, resolveu partir para a cidade de Rio Grande, levando consigo o dinheiro que se encontrava nos cofres do governo. No dia seguinte Bento Gonçalves da Silva, que estava estacionado com seus companheiros no outro lado do Lago Guaíba, entrou triunfante na capital, designando a um dos vice-presidentes da província Marciano Pereira Ribeiro para assumir o governo.

Cinco dias depois, em 25 de setembro, Bento Gonçalves usou a tribuna da Assembleia Provincial para lembrar que sendo militar havia jurado respeito e fidelidade “ao trono constitucional e à conservação da integridade do império”. Além disto, o movimento não era separatista, mas era exclusivamente contra os desmandos do presidente da Província. Em sequência ele emitiu o seguinte manifesto:

“Conheça o Brasil que o dia vinte de setembro de 1835 foi a consequência inevitável de uma má e odiosa administração; e a que não tivemos outro objeto, e não nos propusemos outro fim, que restaurar o império da lei, afastando de nós um administrador inepto e faccioso, sustentando o trono de nosso jovem monarca, e a integridade do Império.

“Sim compatriotas, devemos ao Brasil, que neste momento tem seus olhos fitos em nós, esta manifestação tanto mais sincera e pronta, quanto maior é o dever em que nos achamos de desvanecer os temores com que nossos inimigos o quiseram aclamar, acusando-nos de sustentar vistas de desunião e república. Desgraçadamente nesta província, como nas demais do Império, existe uma facção retrógrada adversa por princípios e interesses à nova ordem, de coisas, e inimiga implacável de todos aqueles que professam decidido amor às liberdades pátrias.

“O Governo de facção desapareceu de nossa cena política, a ordem se acha restabelecida. Com este triunfo dos princípios liberais minha ambição está satisfeita, e no descanso da vida privada, a que tão somente aspiro, gozarei o prazer de ver-vos desfrutar os benefícios de um governo ilustrado, liberal e conforme com os votos da maioridade da província.

“Respeitando o juramento que prestamos ao nosso código sagrado, ao trono constitucional e à conservação da integridade do império, comprovareis aos inimigos de nosso sossego e felicidade, que sabeis preferir o jugo da lei ao dos seus infratores, e que ao mesmo tempo nunca esqueceis que sois os administradores do melhor patrimônio das gerações que vos devem suceder, que este patrimônio é a liberdade, e que estais na obrigação de defendê-la à custa de vosso sangue e de vossa existência”.

É preciso registrar que a ideia inicial do movimento de 20 de setembro de 1835 era apenas a de afastar do governo o presidente da província e substituí-lo por alguém capaz e probo. Bento Gonçalves deixou claro em sua proclamação que o movimento armado não era contra a autoridade do Imperador representando o estado nacional.

O movimento separatista apenas veio a tomar força em 11 de setembro de 1836 quando o coronel farroupilha Antônio de Souza Netto proclamou a República Rio-grandense no local denominado Campo dos Menezes, distrito de Seival, no interior do atual município de Candiota.

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