Relembrando o Professor Darci Lindolfo Müller

Desde que tenhamos a liberdade de expressar o nosso pensamento e um espaço para manifestá-lo, podemos dizer, com critério, o que quisermos.
Assim é que vejo, nestes espaços democráticos, as diversas manifestações do pensamento em política, economia, sociologia, sociedade, religião, filosofia, história, literatura, ciência, etc.
Seus autores, conforme o tema que abordam se recatam ou desnudam em pensamentos e palavras.
Independentemente das manifestações críticas a esse respeito, todos assistimos ao despojamento intelectual e temperamental das pessoas na medida em que exteriorizam o que pensam e o que sentem.
E aí podemos perceber as idiossincrasias, os estados de bom ou mau humor, de alegria, tristeza ou indignação de cada um, vertidos em palavras.
Nos tempos áureos do Correio do Povo, da Folha da Manhã e da Folha da Tarde , eu gostava de ler os artigos e ensaios de Gustavo Corção, um pensador católico, que de tal modo se indignava a ponto de o enxergarmos com uma arma na mão, vociferando contra os inimigos da sua religião; e também de ler as crônicas do jornalista Janer Cristaldo, que era ateu, por seu posicionamento crítico em relação a qualquer assunto.
Por outro lado, em Sant’Ana do Livramento, apreciava ler as crônicas do saudoso professor Darci Müller, sempre bem humoradas e elogiosas a respeito de alguém, ou de algum lugar, como quando falava do sítio e da velha casa onde havia nascido e vivido a sua infância, e parte da sua juventude, lá em Santa Cruz do Sul.
O professor era um gentleman para falar ou escrever, tinha um zelo especial com as palavras, era culto e elegante em sua linguagem, jamais ofendia, jamais atacava, nem usava palavras de gíria, termos chulos ou inadequados, e, como pessoa, era uma figura que irradiava de si muita simpatia, calma e tranqüilidade.
Tenho o privilégio de dizer que ingressamos juntos, em 1998, na Academia Santanense de Letras e que muito aprendi com o professor Müller.
Uma vez ele me disse: “Sabe, Luciano, eu prefiro a crítica elogiosa e faço dela o meu modo de expressão. Quando não tenho nada positivo a dizer, sobre uma pessoa ou instituição, prefiro calar.”
O Professor Darci Müller era católico e também um livre pensador. Todos o queriam bem. De tal modo era benquisto e bem aceito, em qualquer instituição ou irmandade, que frequentava a Igreja e a Maçonaria.
Era educado e ponderado no falar e no escrever. Talvez a única pessoa que conheci que, ao escrever, não se desnudava em público. Havia em si um certo recato na linguagem falada ou literária, uma certa indulgência e nobreza intelectual.
Sua única indignação era com respeito aos inimigos da ortodoxia da língua portuguesa. Grande defensor do idioma e da preservação da sua gramática contra a ignorância e o barbarismo, ele dizia que o mal de muitos redatores era não serem também bons leitores e que por isso não sabiam escrever.
Mas afora isso era condescendente e um otimista em relação a tudo, inclusive quanto à melhoria dos padrões de ensino da língua e do possível cultivo da boa e correta linguagem coloquial nas escolas e universidades.

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